A EJA e a política brasileira

Muitos têm dito que parte do problema político brasileiro se deve ao baixo nível educacional ou à má qualidade da escola brasileira. Não creio que a educação seja tão redentora quanto alguns querem fazer acreditar, pois existem desigualdades que são anteriores e extrapolam as possibilidades da escola. No entanto, o mestre Paulo Freire, em uma de suas frases geniais, afirmava que “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda“. Quer dizer, não podemos apostar apenas na educação, mas também é difícil mudar sem que ela avance. Não é difícil constatar que uma democracia tem mais dificuldade de avançar quando grande parte dos eleitores desconhecem as funções efetivas das instituições para as quais elegem representantes ou ainda se não conseguem fazer uma leitura crítica da realidade para definir que posicionamentos tomar diante dos fatos da vida política e social.

Considerando que o Brasil tem 13 milhões de analfabetos absolutos, 65 milhões de pessoas que não concluíram o ensino fundamental com 15 anos ou mais e 22 milhões de pessoas com 18 anos ou mais que não concluíram o ensino médio, fica evidente que a educação de jovens e adultos tem um enorme desafio educacional a ser cumprido no país que ainda deve se estender por muitas décadas. Entretanto, o esforço das políticas públicas para fazer a EJA ganhar a importância que precisa ter ainda não se faz presente na mesma proporção em que os brasileiros precisariam avançar na sua trajetória educacional. Isso ocorre, em parte, pelo desinteresse de grande parte dos governos estaduais pela modalidade e pela escassez de recursos de muitos municípios, que acabam por dar preferência à educação das crianças uma vez que não têm recursos para realizar tudo que recai sobre sua responsabilidade. Além disso, é preciso ser destacado também o próprio desconhecimento da modalidade por muitos gestores públicos. A EJA na atualidade atende adultos, idosos e uma enorme quantidade de jovens que foram por alguma razão excluídos do sistema de ensino quando eram crianças ou adolescentes. No entanto, ainda se ouvem gestores, secretários, prefeitos e governadores afirmando vez ou outra que a EJA vai acabar porque as pessoas mais jovens estão na escola hoje e, portanto, não haverá candidatos para a EJA no futuro próximo. O curioso é que estes gestores não se dão conta de que grande parte do público da EJA de hoje é o jovem que foi expulso da escola pela própria rede de seu estado e município, que acabam por criar mecanismos que não favorece a permanência na escola de muitos jovens, em especial dos estratos de mais baixa renda. Vale lembrar que cerca de metades dos jovens brasileiros não concluem o ensino médio na idade esperada.

No que se refere a uma educação que tenha o olhar para uma formação política, a EJA tem mesmo um papel fundamental, uma vez que seu público potencial são dezenas de milhões de brasileiros que têm o direito e devem ter a oportunidade de concluir a educação básica e chegar a universidade. Esses são também eleitores, chefes de família e pagadores de impostos, ou seja, são os cidadãos diretamente afetados pelas políticas públicas.

Entretanto, é preciso observar que não basta ir à escola, esta precisa ter uma intencionalidade e um projeto pedagógico adequado a este público, que falta ainda a muitas redes. Propor uma educação que contribua para avançar na direção de um maior desenvolvimento do próprio cidadão significa formar um leitor atento e colocar o foco das aprendizagens nas práticas sociais desses sujeitos. Em especial, na área de ciências humanas, precisamos tomar como tarefa o que pode se definir como o desenvolvimento de um letramento político-cidadão, bastante presente em propostas escolares de países como a Escócia e a Inglaterra. Trata-se de criar uma proposta curricular para a área que tenha como foco as principais dimensões da vida social: o sistema político e as relações de poder; as questões socioambientais, as diversidades de gênero e raça, as desigualdades e conflitos sociais, além dos direitos humanos. Sem que exista um maior foco nessas dimensões dificilmente vamos, de fato, avançar em uma efetiva educação política.

Por fim, devemos assinalar que propor uma educação política na escola não significa doutrinar os alunos como tem sido dito por parlamentares que querem eliminar o que chamam de ideologia, presente na escola ou no livro didático. Não se trata de impor uma visão de mundo, mas de trazer os conteúdos e reflexões necessárias para que estes cidadãos possam se posicionar de maneira crítica diante do mundo político e social que o cerca, pois sem isso, sabemos que dificilmente vamos avançar para que essa democracia deixe de ser o privilégio de poucos.

 

 

 

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