Globalização e espaço geográfico

Compreenda a globalização e o papel dos estados nacionais e empresas nesse contexto

Por Roberto Giansanti

Objetivos

  • Compreender a globalização como uma nova escala de relações humanas.
  • Reconhecer e avaliar o papel de Estados nacionais e empresas transnacionais na constituição da globalização.
  • Identificar redes geográficas e espaços globais e avaliar sua relação com a constituição da globalização.
  • Ler e interpretar mapas em diferentes escalas para compreender e explicar fatos e fenômenos associados à constituição da globalização.
  • Saber utilizar a leitura e a produção de textos em diferentes esferas discursivas e gêneros de texto para compreender fatos e fenômenos geográficos no Brasil e no mundo.

Conteúdo
Globalização – território – rede geográfica – escala geográfica – representação cartográfica – empresa transnacional – espaços globais – linguagem cartográfica – produção de textos em gêneros escritos e orais.
Ano
1º ao 3º Ensino Médio

Tempo estimado
4 aulas

Desenvolvimento das atividades

Vivemos nas últimas décadas os processos de constituição da globalização, uma escala global de relações humanas. Isso está relacionado a reestruturações no setor produtivo de empresas e nas grandes inovações tecnológicas nos meios de transporte, comunicações e informações. Os atores globais são os que melhor se aproveitam destas inovações, organizando a produção e venda de bens ou envio de ordens e informações à distância, em tempo real. No caso do Brasil, poderes públicos em diferentes níveis territoriais de poder (local, regional) oferecem facilidades, como isenções fiscais, com vistas a atrair  unidades de empresas transnacionais para seus territórios, sob a expectativa de criação de empregos. Entretanto, tais empresas, operando à base de tecnologias intensivas, constroem unidades mais enxutas e com reduzido número de trabalhadores. Os custos de sua implantação drenam recursos que poderiam ser destinados a outras áreas e serviços públicos, como saúde e educação.

Primeira aula

Promova uma conversa com a turma para conhecer o que já sabem sobre o processo de globalização. Explore com os estudantes o esquema da pg. 109 e a letra da canção de Gilberto Gil, na pg. 110. Em seguida, peça que elaborem um quadro-síntese com elementos chave da globalização: inovações tecnológicas, reorganização produtiva, descentralização da produção, empresas transnacionais. Esses itens estão expostos de forma detalhada no texto do capítulo.

Converse com a turma sobre sua compreensão a respeito de escalas geográficas. Assinale que esta não se confunde com a escala cartográfica. No caso desta última, trata-se de uma redução proporcional dos elementos a serem representados nos mapas, de modo a permitir a visualização de fenômeno. Numa escala cartográfica grande (redução menor), como as plantas e cartas, pode-se examinar detalhes de um bairro (traçado de ruas, edificações, estabelecimentos, espaços públicos etc); num escala pequena de mapa (redução maior), aparecem grandes espaços, como regiões de um país ou continente, ou o mapa-múndi. Portanto, em termos de linguagem cartográfica, estamos diante de fenômenos distintos, apreensíveis em diferentes escalas cartográficas.

A escala geográfica, ao contrário, refere-se á extensão territorial de um fenômeno, desde a escala local até a global ou planetária. Quando falamos de globalização, algo que está em processo de constituição e contém muitas contradições internas, estamos nos referindo a uma escala geográfica ampla, de âmbito planetário. Para fixar essas ideias, os estudantes poderão examinar coleções de mapas em um atlas geográfico e verificar as classes de fenômenos e sua abrangência espacial, sempre levando em conta as diferenças entre as modalidades de escala.

Para analisar a organização espacial de uma grande empresa, distribua cópias do texto a seguir para que os alunos examinem.

“Enquanto cada empresa conserva uma âncora territorial (sua sede social), seus capitais e os processos de produção estão cada vez mais disseminados no mundo, e generaliza-se o recurso à terceirização para a produção, funções administrativas e serviços. Verdadeiros emblemas da globalização [empresas como]… a Toyota ilustra essa evolução em que as estratégias de produção e de vendas, pensadas globalmente, articulam-se às especificidades locais. (…) A Toyota começou a internacionalizar sua produção a partir de 1959, no Brasil, e hoje se estende por mais de 60 locais de produção em 28 países. Sem reduzir a produção e a exportação do Japão (que segue sendo o centro mais importante da empresa), essa internacionalização tem por objetivo deslocalizar a produção para países emergentes, visando beneficiar-se dos baixos custos de mão de obra e tornar-se competitiva não só nos mercados locais, como também nos mercados europeu e norte-americano. (…) Essa multilocalização da produção apóia-se em uma organização em rede, que religa inúmeros agentes terceirizados e uma infraestrutura também multinacional, que permite à empresa desenvolver produto estandartizados em escala global.”

(M. DURAND et al, op. cit., 2009, p. 62. Com adaptações. Grifo nosso).

É importante notar que a empresa em questão possui unidades em todos os continentes, com adensamento das sedes e da produção no país-sede (Japão) e nas plataformas de exportação em países vizinhos, no Sudeste asiático (Tailândia, Malásia, Indonésia, Vietnã etc), que participam dos sistemas de produção e/ou montagem dos veículos. Isso permite uma descentralização da produção, ao mesmo tempo em que aproxima a empresa dos mercados nacionais. Há também unidades importantes fora do país de origem, como os Centros de Pesquisa e Desenvolvimento situados na Europa e nos Estados Unidos, revelando de forma mais clara a face global da empresa. As redes são formadas justamente pelas ligações e conexões entre as unidades da empresa, instaladas em diferentes territórios. Os maiores fluxos comerciais da empresa estão voltados a conexões com a América do Norte, em especial os Estados Unidos, uma grande mercado consumidor.

Peça aos alunos que selecionem e organizem os dados mais importantes sobre a empresa e, de modo geral, refletir sobre o modo de atuação das empresas transnacionais, que são globais. Isso poderá ser complementado com pesquisas adicionais sobre elas. Lembre à turma que o prefixo trans faz referência a transcendência, no caso transcender as fronteiras nacionais.

Terceira e quarta aulas

Utilize as aulas seguintes para encomendar pesquisas e levantamentos dessa modalidade de empresa no Brasil. Os estudantes poderão, em pequenos grupos, escolher exemplos de empresas ou setores instalados no próprio município ou região em que vivem. É importante que coletem dados sobre empresas instaladas nos últimos anos, já sob o novo paradigma produtivo global. Qual é a empresa? Qual é o seu país de origem? Que produtos ela fabrica? Quando a empresa se instalou? O que a levou a se instalar nesta localidade? Que vantagens ou benefícios obteve para isso? Quantos funcionários trabalham nesta unidade? A mão de obra utilizada é local ou vem de outras cidades ou regiões?

Se necessário, encomende levantamentos prévios em sites, atlas geográficos ou textos sobre a questão. Para complementar o estudo, sugira a leitura dos textos a seguir, sobre a instalação de montadoras de automóveis e sobre a guerra fiscal no Brasil, situação provocada pela instalação de transnacionais no território nacional. Os autores vão fornecer mais algumas pistas sobre essa nova localização da produção industrial.

Texto 1

“Em 2000, o Brasil produziu pouco menos de 1,3 milhão de automóveis (contra 446 mil em 1986); exporta para toda a América Latina e fornece motores para fábricas de montagem das matrizes na Europa e EUA. Mais de 90% dos 27 milhões de veículos que circulam no Brasil foram fabricados no País, tanto automóveis (68%), quanto utilitários, ônibus e caminhões. Até data recente, quatro firmas compartilhavam o essencial do mercado, e três delas continuam a dominá-lo: Volkswagen, Fiat e General Motors. (…) Quanto ao aspecto da localização, antes da série de crises de 1970 e 1980, a maioria das indústrias automobilísticas concentrava-se no Estado de São Paulo, principalmente no ABC e implantações isoladas em Minas Gerais, no Paraná e Rio Grande do Sul. Após 1996, parte das indústrias migrou  para Minas Gerais e Bahia, ao mesmo tempo em que houve aumento na região metropolitana de Curitiba e Porto Alegre.”

(Hervé THÉRY; Neli MELLO, 2005, p.159-160.

Texto 2

As empresas globais e a morte da política

Nas condições atuais, e de um modo geral, estamos assistindo à não-política, isto é, à política feita pelas empresas, sobretudo as maiores. Quando uma grande empresa se instala, chega com suas normas quase todas extremamente rígidas. Como essas normas rígidas são associadas ao uso considerado adequado das técnicas correspondentes, o mundo das normas se adensa porque as técnicas em si mesmas também são normas. Cada técnica propõe uma maneira particular de comportamento, envolve suas próprias regulamentações e, por conseguinte, traz para os lugares novas formas de relacionamento. O mesmo se dá com as empresas. É assim também que se alteram as relações sociais dentro de cada comunidade. Muda a estrutura do emprego, assim como as outras relações econômicas, sociais, culturais e morais de cada lugar, afetando o orçamento público, tanto na rubrica da receita como na despesa. Um pequeno número de grandes empresas que se instala acarreta para a sociedade como um todo um pesado processo de desequilíbrio.

Todavia, mediante o discurso oficial, tais empresas são apresentadas como salvadoras dos lugares e são apontadas como credoras de reconhecimento pelos seus aportes de emprego e modernidade. Daí a crença de sua indispensabilidade, fator da presente guerra entre lugares e, em muitos casos, de sua atitude de chantagem frente ao poder público, ameaçando ir embora quando não são atendidas em seus reclamos. Assim, o poder público passa a ser subordinado. (…) À medida que se impõe esse nexo das grandes empresas, instala-se a ingovernabilidade, já fortemente implantada no Brasil, ainda que sua dimensão não tenha sido adequadamente avaliada.

(Milton SANTOS, Por uma outra globalização, 2001, p. 67-68.)

Os dados obtidos nos levantamentos deverão ser organizados pelos alunos em relatórios ou paineis explicativos. Cumprida esta etapa, proponha uma rodada de apresentações para que todos conheçam os resultados dos trabalhos dos grupos. As conclusões poderão ser anotadas no quadro-de-giz, servindo de base à elaboração de textos dissertativos sobre o tema. Eles poderão discutir questões em torno da validade da instalação desse tipo de empreendimento – um ator global – nas localidades. Isso traz vantagens para a população local? Houve aumento da oferta de empregos? Aumentou a arrecadação pública no município? Os recursos públicos estão sendo bem aplicados, nesses casos? Existem outras prioridades do município, que deveriam ser atendidas?

Avaliação

Considere as expectativas de aprendizagem estabelecidas para esta sequência didática. Leve em conta a participação dos estudantes nos debates orais e nos momentos de produção escrita. Registre  também como se saíram nos momentos individuais e coletivos, assim como o domínio progressivo das habilidades e conteúdos temáticos envolvidos. Se possível, reserve um tempo para que a turma avalie a experiência e considere possíveis desdobramentos para este trabalho.

Bibliografia

DURAND, Marie-Françoise; COPINSCHI, Philippe; MARTIN, Benoît; PLACIDI, Delphine. Atlas da mundialização: compreender o espaço mundial contemporâneo. São Paulo: Editora Saraiva. 2009. 176 p.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000. 174 p.

THÉRY, Hervé; MELLO, Neli A. de. Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território. São Paulo: Edusp, 2005. 309 p.

Internet

ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Estatísticas sobre produção de veículos. http://www.anfavea.com.br/tabelas.html

IBGE http://www.ibge.gov.br (ver link para Pesquisa Industrial Anual)

Mundo educação: O que é Globalização http://www.mundoeducacao.com.br/geografia/o-que-globalizacao.htm

Consultoria: Roberto Giansanti

Professor de Geografia, autor de livros didáticos para Ensino Fundamental, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos e consultor educacional

6 responses to “Globalização e espaço geográfico”

  1. O texto foi muito bem elaborado, parabens

  2. adorei foi muito ultil.

  3. Excelente texto me ajudou!

  4. A historia considerada ciencia que estuda os tempos ou seja a vida do passado da sociedade e muito importante na trasminçao de informaçoes de geraçao em geraçao. por isso que se considera ciencia na qual explica que a natureza como fonte de conhecimento inesgotavel.

  5. esse texto teve uma interpretacao otima

  6. O assunto foi muito bem abordado pelo autor do texto.

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